
O Grito Alemão e o Lamento de Maradona em 1990
Final da Copa 90, Roma. Argentina de um Maradona em baixa contra a máquina alemã. Um jogo duro, tenso e tático, decidido por um pênalti controverso. Alemanha vence, e as lágrimas de Maradona marcam o fim de uma era.
Lembro-me daquela tarde de domingo, uma tarde de inverno no Brasil mas de um verão romano que fervilhava em expectativa. O mundo inteiro, ou pelo menos a sua parte apaixonada por futebol, parava para o último ato da Copa do Mundo de 1990. Era um jogo que transcendia a disputa esportiva; carregava o peso de uma revanche, a glória de um título e, para alguns, o prenúncio do fim de uma era. Roma se vestia de festa, mas o ar era de uma tensão quase palpável.
De um lado, a Argentina de Diego Maradona, a lenda viva que quatro anos antes havia pintado obras de arte com a bola, mas que agora se arrastava por lesões e a marcação impiedosa dos adversários. Do outro, a Alemanha Ocidental, uma máquina de eficiência e disciplina tática, liderada por Lothar Matthäus e com uma constelação de talentos como Klinsmann e Völler. Era o embate entre a genialidade individual, já um pouco esmaecida, e a força coletiva implacável.
A partida, para a memória coletiva, ficou como uma das finais mais duras e menos inspiradas da história das Copas. Não houve a fluidez do jogo bonito, nem a profusão de gols que embalam os sonhos. O que se viu foi uma batalha de nervos, uma aridez tática que sufocava qualquer lampejo de criatividade. Faltas excessivas, cartões amarelos e uma Argentina encolhida, tentando sobreviver e apostando na magia que Maradona não conseguia mais conjurar sozinho.
O tempo corria lento, a frustração crescia a cada passe errado, a cada jogada interrompida. O jogo se arrastava para um desfecho que parecia inevitável nos pênaltis, um desfecho que a Argentina de Bilardo já havia abraçado em outras fases. Mas o destino, ou melhor, o árbitro Edgardo Codesal Méndez, tinha outros planos. Uma jogada na área argentina, um suposto contato, e o apito estridente que congelou o estádio, a tela da televisão, o coração de milhões. Pênalti.
A responsabilidade caiu nos pés de Andreas Brehme. Um momento de silêncio sepulcral, a bola na marca, a corrida, o chute. A rede balançou. Não foi um gol espetacular, talvez nem o mais justo aos olhos de muitos, mas foi o gol que decidiu uma Copa do Mundo. Aos 40 minutos do segundo tempo, a Alemanha finalmente abria o placar, e a Argentina, já com dois jogadores expulsos, desmoronava sob o peso da derrota iminente.
O apito final veio como um alívio e um lamento. A Alemanha Ocidental, pela última vez antes da reunificação, erguia a taça, celebrando a vitória da persistência e da organização. Do outro lado, a imagem que ficou eternizada: Diego Maradona, com os olhos marejados, os ombros encurvados, o capitão de um time que lutou até o fim, mas que não conseguiu superar as adversidades. Suas lágrimas não eram apenas pela derrota, mas talvez pelo fim de um ciclo, o adeus a uma era de dominação.
Aquele domingo de 1990 não foi sobre a beleza plástica do futebol, mas sobre a intensidade da disputa, a dureza da tática e a profunda emoção que um Mundial pode evocar. Foi uma final que, para muitos, simbolizou a virada de uma década, o fim de certos romantismos e o início de um futebol mais pragmático. Uma final amarga para os amantes da arte, mas inesquecível pela sua carga dramática e pelo legado de uma lenda que se despedia do palco maior, banhado em lágrimas e em glória.







